Ruy Cruz

Artigo “Psicologia: Ciência, Profissão e Carreira” por Ruy Ribeiro Moraes Cruz

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Frente aos paradigmas que envolvem a “loucura”, os desafios e a evolução dos atuais sofrimentos psíquicos, as pseudociências e o mau uso da inteligência artificial na substituição dos psicoterapeutas pelo ChatGPT e psicólogos no SUS pelo aplicativo E-Saude Mental, venho refletindo no ambiente acadêmico sobre a valorização desta ciência, profissão e carreira que teve sua regulamentação pela Lei nº 4.119/1962.

Logo, encontro referências que contribuem com sua razão de ser “o saber e o fazer” que se propõe a estudar a subjetividade e o comportamento humano, na busca do seu bem-estar e qualidade de vida digna tanto individual como coletiva.

Dentre os marcos, temos experimentos realizados no laboratório de Wilhelm Wundt, na Alemanha (1879), a Reforma “Benjamin Constant” (1890), que incorporou a Psicologia nos currículos das escolas normais, a inauguração do primeiro Laboratório de Psicologia Experimental (1906) e a criação por intermédio da Lei nº 5.766/1971 do Conselho Federal e os CRP’s no Brasil.

Esta tempestade de ideias também instiga a compreender que historicamente esta profissão busca manter-se autônoma e com credibilidade, ao mesmo tempo que sofreu e sofre influências no seu olhar ao atender em outrora aos interesses da saúde, educação e do trabalho.

Neste momento, faço aqui uma analogia a vida do inventor ou inovador da aviação, Santos Dumont, que teve seus esforços científicos visionários sendo utilizados como instrumento de guerra pela humanidade, esta ciência, portanto, também atendeu a lógica positivista ao realizar seus experimentos nas dependências da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro (1923) e em outros manicômios que foram e ainda persistem sendo utilizados para segregação e controle social.

Hoje, certo de que a Psicologia carrega em sua evolução tais marcas, considero que ao nos mantermos enviesados com os movimentos afirmativos, restringimos e sobrepomos pautas salutares, prejudicando, portanto, a ampliação e conquista de uma classe profissional desprovida de um piso salarial, da supressão da informalidade e a superação da concepção que envolve a “loucura”.

Assim como, de medidas que protegessem a carreira por meio da regulamentação do uso da Inteligência Artificial por aqueles que precisam de atendimento especializado, das invasões de pessoas que se intitulam “terapeutas” e dos outros profissionais que vem se apropriando deste saber científico.

Apresentamos dificuldades, até em realizar o dever de casa, em alinhar o discurso ao esclarecer se a Psicologia é uma área de conhecimento das ciências humanas, naturais ou exatas. Já que temos estudos salutares na psicometria e, o CNPq estabelece que se trata de uma Ciência Humana ao se debruçar no estudo do ser humano enquanto um ser social, enquanto temos as Resoluções CNS nº 218/97 e nº 287/98 que enquadram a disciplina como uma das categorias profissionais da área da saúde.

Destaco que mesmo sofrendo o descrédito da classe política em ignorar tais bandeiras do exercício profissional e em não fazer cumprir as políticas públicas que ampliariam sua atuação a serviço da sociedade, a Psicologia ainda assume um protagonismo na busca por cidadania em uma nação tão vulnerável no entendimento de que saúde não significa o contrário doença, assim como, a justiça se traduz na preservação da dignidade humana de cada ser.

Caro leitor, confiante de que se trata de um dever de todos, postulo que devemos oportunizar aos atuais e futuros profissionais ferramentas que promovam uma conscientização de qual é o seu papel e a sua importância para a comunidade, conforme aduz o Art. 4º da Resolução da CFP nº 23/2022.

Para entendermos a complexidade da subjetividade humana a Psicologia, enquanto ciência e profissão, temos que apresentar um carácter multifacetado que integre o que existe de melhor nas ciências naturais, exatas e sociais, ficando na responsabilidade de cada profissional a elaboração de um plano de voo ou trilhar um caminho que valorize a ética no cuidado com os “sujeitos de direitos” que buscam sua expertise e impeça a sua substituição por influenciadores digitais e aplicativos de Inteligência Artificial e por profissionais “abutres”, que se aproveitam da ignorância e do sofrimento psíquico alheio.

Por fim, o(a) profissional da Psicologia deve saber que está habilitado a trafegar em um universo dinâmico e em constante transformação pessoal, social e da humanidade. Como aduz Santos Dumont (1918) “a atmosfera é o nosso oceano e temos portos em toda a parte”, bastando apenas saber acolher cada ser, conscientizar a sociedade e nos capacitar permanentemente.

Artigo de Ruy Ribeiro Moraes Cruz

Psicólogo CRP 22-00582, Advogado OAB/MA 27106 e Mestre em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde-UFRN