
Nem toda dor precisa de comprimido.
A medicalização excessiva tem transformado sofrimento humano em lucro.
Não sou contra os medicamentos, eles salvam vidas.
Mas quando a receita se torna automática,
a escuta, o acolhimento e a humanidade ficam em segundo plano.
A saúde não pode ser refém da indústria farmacêutica.
A medicalização excessiva e o papel da indústria farmacêutica
Como psicólogo, não sou contra o uso de medicamentos. Reconheço que em muitos casos eles são necessários e salvam vidas. Mas é urgente discutir o processo de medicalização excessiva que se tornou rotina em nossa prática de saúde.
Hoje, em 99,9% dos consultórios médicos, a resposta imediata a quase qualquer queixa é uma receita. E não falo apenas da psiquiatria: clínicos gerais e outros especialistas também seguem essa lógica. Esquecemos que a natureza oferece alternativas, compostos presentes em frutas, ervas e alimentos, que poderiam, em situações simples, reduzir a dependência da farmácia.
Por trás desse cenário, há um problema maior: a influência direta da indústria farmacêutica sobre a prática médica. Palestras, artigos enviesados e congressos patrocinados moldam a percepção de muitos profissionais. Mais grave ainda: médicos que prescrevem frequentemente determinados medicamentos recebem incentivos financeiros, muitas vezes sem a necessidade de comprovação ou contrapartida clara.
Recém-formados são especialmente visados. Representantes comerciais, treinados em técnicas de persuasão, visitam consultórios diariamente. São homens e mulheres que dominam a linguagem técnica, mas não possuem formação em saúde. Vendem não apenas medicamentos, mas a ideia de que eles são indispensáveis.
Nesse contexto, o médico que resiste à pressão e só receita quando necessário corre o risco de perder pacientes, retorno financeiro e até prestígio. O cuidado com a saúde se transforma, assim, em mercadoria. E quando a vida se reduz a números de venda, quem perde é a sociedade.
Como psicólogo, não sou contra os medicamentos, mas contra a medicalização excessiva.
Em 99,9% dos consultórios, a primeira resposta ainda é uma receita.
A indústria farmacêutica patrocina palestras, artigos e até oferece incentivos financeiros para quem prescreve mais.
Representantes comerciais assediam recém-formados, vendendo remédios como milagres.
E quem paga o preço? O paciente, que muitas vezes precisaria primeiro de acolhimento, mudança de hábitos ou intervenção psicológica.
Cuidar não deveria ser sinônimo de prescrever.
Obs: os 99,9% que demonstro no breve artigo, não tem validação científica, é uma visão pessoal, e social de décadas convivendo, aprendendo e observando como quem receita trabalha e quem vende medicamento também trabalha.
Artigo de Antônio José Freitas Neto – Psicólogo, pós-graduado em Saúde Mental, Mestre em Gestão de Programas e Serviço em Saúde, com ênfase em Saúde Coletiva


