“Quem sabe isso quer dizer amor…”, por Steffano Silva Nunes

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Terça-feira, 18h07, dia 04 de novembro de 2025. Os problemas da vida e do trabalho ainda estão sendo resolvidos, por isso parei no Bar do Léo. Vou misturando alguns temas com algumas doses. Foi aqui que, pela última vez, encontrei o amigo e ex-professor do segundo grau, Dimas, falecido anteontem. Apesar de ter um nome curto e de fácil pronúncia, sempre teve o sobrenome associado: Salustiano.

Graças a um outro amigo em comum, Neil Armstrong, fui levado ao aniversário de 60 anos de Dimas no ano passado. Posso dizer que testemunhei o seu desabrochar sexagenário. Presenciei que aquele momento de celebração significava o coroamento, o auge de uma carreira pessoal e profissional de sucesso e uma militância política coerente, cercado de familiares e amigos que ali estavam para celebrar o amor que ele cativou e alimentou por toda a vida com todos os presentes.

A segunda-feira já estava triste com a notícia da partida de Dimas no domingo, mas eis que se fez lembrada uma velha máxima de que “não há nada tão ruim que não possa piorar”. Surge a notícia da partida de Lô Borges, um dos nomes que construiu o Clube da Esquina, com músicas que, para mim, estão marcadas desde a infância. Fui ouvir várias dessas músicas e pesquisar um pouco mais sobre ele. Dei-me conta de que conhecia pouco da sua história, do seu tamanho e da sua importância para uma expressiva fase da nossa música. Senti-me ignorante.

A começar pelo fato de que, não sei por quê, durante muito tempo me parecia que o Clube da Esquina era uma banda que deixara de existir. Quanta inocência. Só ontem me dei conta e soube que foram muito, mas muito mais do que um grupo musical. Foram um movimento artístico, político, musical, cultural e romântico.

O LP Clube da Esquina foi produzido quando ele tinha apenas 19 anos. É verdade esse bilhete? Como assim? Um dos melhores e mais importantes álbuns da nossa música, produzido em tão tenra idade?

Costumo dizer de forma exagerada que não preciso que se produzam novas músicas. Estou satisfeito com as que já existem. E são tantas que não dediquei a devida atenção às do Clube da Esquina e ao protagonismo de Lô Borges no mesmo. Sempre afirmamos que a MPB tinha uma nuance especial chamada MPM (Música Popular Maranhense), que sempre flertou intensamente com a música mineira. Há quem garanta, por exemplo, que Paulinho Pedra Azul é mais ouvido aqui do que na terra do pão de queijo. Essa relação MaraMinas está marcada com Lô Borges também, pois foi com o nosso aclamado Zeca Baleiro que ele fez a parceria do último álbum concluído. Os caras da Esquina produziam música popular, jazz, blues, rock e passeavam pelo psicodelismo. Chega a parecer que a música popular mineira daquela época era uma categoria um pouco superior à nossa música popular brasileira.

As lembranças nos trazem, nesse momento, reflexões. A dor da perda é também uma espécie de despertar, um alerta de que precisamos viver e aproveitar o presente. Pois esse sopro chamado vida, que de uma hora para outra nos rouba Salustianos e Borges, também nos dá a oportunidade de criar bons encontros como esse: as músicas do Bar do Léo com as referências de Dimas Salustiano e Lô Borges. Celebro com a última música pedida hoje, da lavra do mineiro da Esquina, que faz com que outras lembranças se unam na minha cabeça, ampliando e ressignificando sentidos: “Quem sabe isso quer dizer amor.”

Artigo de Steffano Silva Nunes – Médico Veterinário e escritor.