Podcast Redemoinhos estreia no Imirante comentrevista de Eric Nepomuceno

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O podcast Redemoinhos, apresentado pelo jornalista e poeta Félix Alberto Lima, estreia nesta sexta-feira, dia 16, no portal Imirante. Com periodicidade quinzenal, o podcast se propõe a discutir ideias, literatura, artes e comportamento. O convidado do episódio inaugural é o escritor, jornalista e tradutor Eric Nepomuceno, em uma conversa marcada por memória, afeto e reflexão crítica sobre a América Latina.

Na entrevista, Eric Nepomuceno revisita sua trajetória pessoal e profissional, marcada pelo jornalismo durante a ditadura militar brasileira, pelo exílio e por uma imersão profunda na literatura hispano-americana. Nascido em São Paulo e criado entre Rio de Janeiro e São José dos Campos, ele relembra a formação familiar e intelectual que o levou ao jornalismo inovador do Jornal da Tarde e, posteriormente, à decisão radical de deixar o Brasil para viver em Buenos Aires, em pleno regime autoritário.

Foi na capital argentina que se deu um dos encontros decisivos de sua vida: a amizade com Eduardo Galeano. Mais do que amigo, Galeano tornou-se, segundo Nepomuceno, um “irmão mais velho”, responsável por inseri-lo de forma orgânica no universo da grande literatura latino-americana. A convivência na revista Crisisabriu portas para encontros e relações com autores como Mario Benedetti, Julio Cortázar e Juan Rulfo, num ambiente em que literatura, política e resistência se misturavam naturalmente.

Um dos pontos altos da entrevista é o relato da relação com Gabriel García Márquez, de quem Nepomuceno foi o principal tradutor no Brasil. Ele narra o primeiro contato, ainda nos anos 1970, mediado pelo contexto da resistência às ditaduras do Cone Sul, e a amizade que se consolidou depois, no México e em Cuba. Mais do que traduzir a obra de García Márquez, Nepomuceno acompanhou de perto seu método de trabalho, sua visão de jornalismo e literatura e sua inserção no chamado Boom latino-americano.

Um Brasil à margem

Ao falar do Boom, o entrevistado relativiza o termo: para ele, não houve exatamente um “boom literário”, mas um boom editorial, impulsionado por editoras argentinas e espanholas, que projetou autores hispano-americanos internacionalmente, deixando o Brasil à margem. Ainda assim, reconhece a força estética e política daquele momento e a centralidade de nomes como García Márquez, Cortázar e Carlos Fuentes.

Especial destaque é dado a Juan Rulfo, apontado por Nepomuceno em consonância com o próprio García Márquez como o grande mestre e precursor do que mais tarde se chamaria realismo mágico. Autor de uma obra curta e decisiva, Rulfo teria inaugurado uma forma de narrar profundamente enraizada no imaginário popular, na oralidade e nas paisagens humanas da América Latina, exercendo influência duradoura sobre gerações posteriores.

A conversa também passa pela convivência com escritores brasileiros no exílio, em especial Ferreira Gullar. Nepomuceno relembra o poeta maranhense como uma figura marcada pela tristeza e pela intensidade, e reflete sobre o impacto do Poema sujo, escrito em Buenos Aires, como um gesto de sobrevivência pela poesia em meio à perseguição política e às dificuldades pessoais.

Ao final, Eric Nepomuceno amplia o debate para além da literatura, criticando o distanciamento histórico do Brasil em relação à América Latina e a fragilidade da memória coletiva no país, sobretudo no que diz respeito aos crimes das ditaduras. Para ele, escrever, seja como jornalista, tradutor ou ficcionista, sempre foi uma forma de enfrentar o esquecimento e reafirmar vínculos culturais e humanos no continente.

Com essa entrevista de estreia, Redemoinhos se apresenta como um espaço de escuta qualificada e reflexão profunda, conectando literatura, história e experiência pessoal. O episódio com Eric Nepomuceno estará disponível a partir desta sexta-feira no portal Imirante, inaugurando uma série que promete dialogar com os grandes temas da cultura contemporânea.