
MPOX
Mpox: OMS decreta emergência de saúde internacional pela doença; entenda o que isso significa
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, decidiu declarar que o avanço da mpox constitui uma emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII), o nível mais alto de alerta da organização. A decisão seguiu a recomendação do Comitê de Emergência convocado pelo diretor, que se reuniu pela primeira vez nesta manhã.
“Hoje, o Comitê de Emergência se reuniu e me informou que, em sua opinião, a situação constitui uma emergência de saúde pública de interesse internacional. Aceitei esse conselho”, disse o diretor-geral em coletiva de imprensa nesta tarde.
“A detecção e rápida disseminação de um novo clado da mpox no Leste da República Democrática do Congo (RDC) , sua detecção em países vizinhos que não haviam relatado mpox anteriormente e o potencial de disseminação adicional dentro e fora da África são muito preocupantes”, continuou.
O que é uma emergência de saúde pública de importância internacional (ESPII)?
Segundo a OMS, a ESPII é “um evento extraordinário que é determinado como um risco à saúde pública de outros países por meio da disseminação internacional de doenças e que potencialmente exige uma resposta internacional coordenada”. De acordo com a organização, isso implica que a situação é grave, repentina, incomum ou inesperada; traz implicações para a saúde pública além da fronteira nacional do país inicialmente afetado e pode exigir ação internacional imediata.
Além disso, o Clado 2 da doença, responsável pela disseminação global inédita em 2022, continua a se disseminar nos países, ainda que em menor proporção. No Brasil, por exemplo, houve 709 casos confirmados ou prováveis de mpox até agora em 2024, segundo o Ministério da Saúde.
— Não estamos lidando com um surto de um clado, estamos lidando com vários surtos de diferentes clados em diferentes países, com diferentes modos de transmissão e diferentes níveis de risco — destacou o diretor-geral da OMS nesta manhã.
Ao todo, 16 especialistas participaram do Comitê de Emergência como membros ou conselheiros. Entre eles, dois brasileiros: a coordenadora do Laboratório de Biologia Molecular de Vírus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Clarissa Damaso, e o pesquisador do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs/Fiocruz) Eduardo Hage Carmo.
Qual é o risco da mpox chegar ao Brasil?
No Brasil, o Ministério da Saúde disse, em nota nesta quarta-feira, que “acompanha com atenção essa situação e analisa permanentemente as evidências científicas mais atuais sobre o tema em nível internacional, assim como o cenário epidemiológico no Brasil e no exterior, de forma a subsidiar as recomendações e ações necessárias no território brasileiro”.
— Apesar de não termos registrado ainda casos do Clado 1 fora da África, a possibilidade de o vírus chegar às Américas e ao Brasil existe especialmente se considerarmos a transmissão sustentada relacionada ao contato sexual que estamos vendo na RDC, o que facilita a disseminação de uma maneira parecida com a emergência do Clado 2 em 2022. E quanto mais a situação se agrava na África, são mais pessoas infectadas, uma maior transmissão e consequentemente um maior risco para os outros países — avalia a virologista especialista em Poxvírus Giliane Trindade, coordenadora do Laboratório de Vírus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora de Microbiologia da instituição.
Uma preocupação com uma versão do Clado 1 que consegue se disseminar como o 2 pelo mundo é especialmente devido à agressividade da linhagem, lembra o virologista da Universidade Feevale e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vigilância Genômica de Vírus, Fernando Spilki: — A mortalidade agora é completamente diferente da que observamos com a outra linhagem de mpox do surto de 2022. Ela chega a ser de 4% dos casos notificados em adultos e até 10% em crianças pelo que temos observado na RDC.
As mortes por mpox atingem qual faixa etária?
Segundo dados da OMS, de um modo geral 66% dos casos e 82% das mortes na RDC pelo Clado 1 até agora foram abaixo de 15 anos, e 73% entre homens. Já os diagnósticos específicos pelo Clado 1b são predominantes em homens adultos e ligados à transmissão sexual.
O infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) José Cerbino Neto, consultor do Richet Vacina e pesquisador do Instituto D’Or (IDOR), diz que as informações ainda não são suficientes para saber se a cepa vai circular pelo mundo, mas que acredita que a declaração de emergência pela OMS pode ajudar a barrar essa possibilidade.
— Sempre existe o risco de esse vírus se espalhar e, se houver essa expansão da área de transmissão, ele eventualmente chegar ao Brasil. Mas não há como dizer com certeza nesse momento se vai ou não. Com a emergência, haverá medidas de contenção para buscar restringir a circulação do vírus, e é possível que se consiga evitar que ele chegue a outros países — diz.
Para Spilki, que participa junto com Giliane da Câmara Técnica Pox do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), para isso é importante que países estejam atentos e se preparem:
— Como é uma doença extremamente contagiosa, as vigilâncias e os sistemas de controle precisam estar muito atentos para qualquer evidência de casos. E temos o problema de hoje ter o mundo globalizado, com as pessoas viajando e se deslocando, em que, se não houver um cuidado transnacional muito grande, podemos ter uma transmissão sim. Precisamos estar atentos a essa possibilidade especialmente com doenças suspeitas em viajantes e em contatos próximos no país.
Uma das vantagens é o maior acesso às vacinas, inicialmente desenvolvidas para a versão tradicional da varíola, erradicada em 1980, mas que também conferem proteção contra a mpox por serem da mesma família de vírus.
— A grande pergunta que vem sendo estudada é em que medida a vacina consegue dar uma boa proteção contra essa cepa em específico, o que é bastante possível. Desde junho, as vacinas vêm sendo aplicadas na RDC. Então é de esperar que continuemos tendo uma proteção adequada. Mas precisamos ter estoques da vacina, principalmente para imunizar as cadeias de contatos próximos daquele paciente e profissionais de saúde, de laboratórios. Isso os países precisam estar preparados — diz Spilki.
No Brasil, uma das vacinas é inclusive aplicada a grupos de maior risco no SUS, como pessoas que vivem com HIV e com contagens baixas de células de defesa. Na última sexta-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um documento oficial em que convidou os fabricantes a submeterem as doses para aprovação de uso em caráter de emergência pela autarquia.
As doses já foram aprovadas por agências reguladoras de referência, como a europeia, a americana e pela Anvisa, mas um aval da OMS poderá acelerar o acesso pelo mundo, especialmente em países de baixa renda, e permitir que parceiros como Gavi e Unicef adquiram os imunizantes para distribuição.



