Artigo “Dia do Psicólogo(a): Psicoterapia com IA: a eliminação do outro real” por Ruy Ribeiro Moraes Cruz

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Em uma sociedade de desempenho, apresentada pelo filósofo Byung-Chul Han, em que os paradigmas acerca da “loucura” e dos temas que envolvem o sofrimento psíquico cedem espaço aos vícios sociais, o uso da tecnologia para realizar tarefas de aconselhamento emocional anula a vivência com o outro ao reduzir a interação com o que ecoa do incompreendido ao irreal.

Isso porque os indivíduos, ao preferirem falar sobre seus sentimentos com o que hoje denominamos Inteligência Artificial (IA), ao invés de buscar o contato real, demonstram desacreditar na compaixão humana e na capacidade dos profissionais que utilizam o saber científico da Psicologia. Logo, tornam-se presas fáceis de aplicativos que geram prazeres imediatos, como doces venenos que as atraem para as arapucas dos interesses biomédicos e neoliberais.

Segundo o criador da Comunicação Não Violenta (CNV), Marshall Rosenberg, a pessoa, ao abrir-se de coração, pede uma escuta atenta, sendo merecedora de um acolhimento empático, sem sofrer o julgamento de quem a ouve.

Caro leitor, acredito que esse processo deve ser livre do “efeito sicofante”, bem representado no ambiente corporativo da Revista Runway no filme. O Diabo Veste Prada, no qual a complacência do algoritmo visa alimentar o sistema de recompensa do usuário por meio do engajamento, ao invés de assumir um compromisso com a verdade e com a transformação do ser.

Desse modo, o consumo de ferramentas como ChatGPT, Claude, Gemini e assemelhadas acaba funcionando como uma estratégia de sobrevivência pela oferta de placebos à subjetividade humana, que convive com o mascaramento dos problemas por meio dos psicodiagnósticos e da medicalização.

O renomado historiador Leandro Karnal, em uma entrevista com uma dessas IAs, afirma que seus desenvolvedores se isentam de culpa frente às consequências. Da mesma forma, os próprios aplicativos, programados para tal, simplesmente “lavam as mãos que não têm” diante dos impactos causados à proteção de dados e ao desejo de viver de quem pede ajuda.

Na canção intitulada “Fala”, da banda Secos & Molhados, interpretada por Ney Matogrosso, o escutar humano diferencia-se no objetivo ético da interação com o sujeito. O psicólogo diferencia-se da IA no propósito de auxiliá-lo no desvendar de seu sofrimento psíquico.

Enquanto os aplicativos entendem o discurso como um comando a ser respondido, visando à previsão de novas respostas e à manutenção da conexão, o especialista utiliza um conjunto de estratégias e técnicas validadas pela ciência que o torna habilitado a ativar sua inteligência emocional mesmo quando não souber o que dizer, pois como diz a letra da música, o profissional não dirá “nada por dizer”; ele escutará tudo o que o outro quiser falar, respeitando o silêncio e a sua autonomia, sem a necessidade algorítmica de agradar ou ser validado.

Logo, tais sujeitos da auto-otimização psíquica, assim como a sociedade em geral, devem compreender que, do outro lado das telas, não há o compromisso ético com a sua autonomia. Pelo contrário: acometidos pelo “terror do outro”, como afirma Han, seus adeptos mantêm-se isolados do mundo promissor do autoconhecimento.

Por fim, essa preferência pela predição bajuladora constitui um empecilho no cultivo do amor a si e ao próximo, bem como no acesso à escuta qualificada de um profissional, que se torna instrumento de um processo terapêutico que Carl Rogers afirma ser essencial para a mediação da descoberta progressiva e para a aceitação desse eu autêntico.

Ruy Ribeiro Moraes Cruz, psicólogo (CRP 22-00582), advogado (OAB/MA 27106) e mestre em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde pela UFRN.