Artigo Os “Nós de Nó” e os Laços da Vida, por Ruy Cruz

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Nós, digo eu, você e a sociedade, somos desafiados a lidar com os “nós de nó” que compõem as madeiras, os que inconsciente ou propositalmente criamos em nosso dia a dia.

Somos instigados a desvendar o envolver das amarras, na busca do sentido certo que, ao mesmo tempo, desaperte e desate o nó, formando um imediato e belo laço.

Ágeis e compulsivos, anestesiamos os sofrimentos, quando frustrados, nos furtamos da oportunidade de melhor compreendermos as nossas emoções e sentimentos, aperfeiçoando, por sua vez, nossos repertórios.

Como aduz o filósofo Byung-Chul Han, ao criticar o neoliberalismo, a “potência positiva” nos faz acelerar ao ponto de, “não damos tempo ao tempo”, vivemos a naturalização do cansaço, e repetimos ciclos e tramas que emaranham nossos conflitos frente ao desleixo com sinais e sintomas do sofrimento psíquico íntimos que não assumimos e, tampouco, investimos no processo psicoterápico.

Caro leitor, costumo utilizar parábolas como forma de propiciar analogias e ajudar nas tomadas de decisões. Relato aos pacientes que atendo na clínica a estória de um cãozinho que vivia à beira de uma estrada do interior onde obras de asfaltamento eram realizadas e, que o engenheiro responsável costumava frequentar uma quitanda para tomar um café ou uma pinga durante o dia.

Certa vez, este se viu incomodado ao perceber que esse cãozinho ficava deitado na soleira, encostado em uma das portas velhas de madeira, sempre emitindo sons de dor. Deste modo, decidiu perguntar a quem lhe atendia o motivo desse comportamento.

O proprietário, por sua vez, lhe disse que o cão não era seu, mas que logo pela manhã, ao abrir a venda, ele se alojava lá, junto a uma porta cheia de pregos, que ao lhe ferir, lhe fazia rosnar e emitia estes sons, mas logo dava um jeito de se adaptar novamente. Qual a moral da estória?

Questiono se possivelmente ele preferia viver uma dor conhecida, do que buscar outros caminhos, dilemas e desafios fora daquela soleira.

No cotidiano deste ser, ressalto, não há restrições física, só existe um nó subjetivo, que ele mesmo criou.

Nesta estória, proponho a reflexão de que facilmente apresentamos, procuramos rótulos por meio de diagnósticos, justificamos culpas e apontamos falhas no contexto familiar, no comportamento dos outros, ao mesmo tempo, em que damos nossas opiniões, bem como indicamos aquele “remedinho” sem sermos consultados ou habilitados.

Logo, enganados, nós e os demais, projetamos que os defeitos estão nas relações, desatrelando-as das próprias decisões que tinham um traçado concebido como satisfatório, seja para a resolução de nossos conflitos, carências, desejos e ambições.

Atuamos de forma teatral, independentemente dos espaços interpessoais ou laborais, ao nos vitimizarmos e nos isentamos por servir de manobra ao idealizado pela sociedade.

Alerto que, ao nos mantermos na zona de conforto e ganhos secundários, preferimos não nos desvencilharmos de coleiras invisíveis criadas por expectativas pessoais e coletivas sobre nós e as que projetamos aos outros.

Por fim, como aduz o cantor paraibano, Yuri Carvalho, na canção, Desatando o nó, creio que a psicoterapia ajuda o paciente a “afrouxar devagarinho, desfazendo com jeitinho, feito macramê”, vendo por onde a linha percorreu e emaranhou, ou seja, temos que neste entrelaçar de fios, aceitar os desafios, nos conhecendo e aprendendo, que é desatando o nó, que se faz um nó, laços e elos na vida.

* Ruy Ribeiro Moraes Cruz é Psicólogo CRP 22-00582, Advogado OAB/MA 27106 e Mestre em Gestão, Trabalho, Educação e Saúde-UFRN