Povo Krikati reage à crise ambiental com restauração, liderança feminina e justiça climática

0
29

Em uma das regiões mais desmatadas do país, a Terra Indígena Krikati, no sudoeste do Maranhão, torna-se referência de resiliência, governança ancestral e soluções climáticas.

O Cerrado é a maior savana tropical da América do Sul, abriga mais de 12 mil espécies de plantas (um terço delas endêmicas), armazena grandes quantidades de carbono em suas raízes profundas e fornece cerca de 40% da água doce subterrânea do Brasil. É o coração das águas, berço das principais bacias hidrográficas da América do Sul, como as dos rios Tocantins-Araguaia, São Francisco, Paraná-Paraguai e Amazonas, o que o torna essencial à segurança hídrica e climática de todo o Cone Sul.

Apesar dessa importância ecológica, é o bioma brasileiro menos protegido por lei. Estimativas do WWF, ICMBio e outras organizações ambientais indicam que menos de 10% do Cerrado está coberto por áreas protegidas, sendo que a porcentagem de áreas estritamente protegidas (como parques nacionais) é ainda menor, com menos de 3%. Esses números estão muito aquém da Meta 11 de Michi, compromisso assumido pelo Brasil no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB),  que estabelece como referência a proteção de 17% dos biomas terrestres e 30% da Amazônia até 2020 por meio de Unidades de Conservação.

Enquanto a proteção avança lentamente, o desmatamento avança. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD), do MapBiomas, só em 2023 o Maranhão perdeu mais de 218 mil hectares de vegetação nativa, o equivalente a quase 2,5 vezes a área da cidade de São Paulo. Quase 90% dessa devastação ocorreu no Cerrado, que sozinho perdeu mais de 1,1 milhão de hectares naquele ano, revelando a gravidade do avanço do desmatamento sobre os ecossistemas savânicos.

Diante da omissão histórica do Estado e da crescente pressão da monocultura, o povo Krikati responde com ações concretas: restauração do Cerrado, proteção das águas e fortalecimento das mulheres como guardiãs do bioma. A iniciativa, apoiada pelo Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) e pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), através do Governo do Canadá, é exemplo vivo de soluções climáticas de base comunitária, e prova de que restaurar ecossistemas é também restaurar dignidades, saberes e futuros.

Fortalecimento territorial com protagonismo comunitário

Homologada em 2004, a Terra Indígena (TI) Krikati abrange hoje 14 aldeias estrategicamente fundadas para proteção do território. Localizada entre os municípios de Montes Altos e Sítio Novo, a TI é constantemente ameaçada pela grilagem de terras, cercamentos ilegais, racismo ambiental e impactos de grandes obras, como a MA-280, rodovia estadual que atravessa o território sem sinalização e infraestrutura de proteção adequada.

Indígenas e animais silvestres já foram atropelados por veículos em alta velocidade, em um trecho que deveria ser tratado com cuidado, sinalização e respeito. Embora as denúncias se arrastem há pelo menos uma década, e a Secretaria de Estado da Infraestrutura já tenha anunciado estudos no local, nenhuma providência concreta foi tomada pelo Departamento de Rodovias do Maranhão (DER-MA), responsável pela estrada.

Comunidades, ambientalistas e reportagens locais vêm alertando para o perigo constante da via, tanto para motoristas quanto para a vida que habita a Terra Indígena. Segundo dados da Confederação Nacional dos Transportes, as condições da infraestrutura das estradas, a ausência de placas, redutores de velocidade e sinalização adequada são fatores determinantes para o aumento de acidentes. Ainda assim, a omissão segue naturalizada, perpetuando o risco diário à integridade física e espiritual do povo Krikati.

Além do perigo cotidiano, a própria obra da rodovia soterrou uma das três cabeceiras do Rio Pindaré, um dos mais importantes do Maranhão, que nasce dentro da TI Krikati, na Serra do Gurupi. Um local que, por décadas, foi usado para rituais, pesca e banho, ficou seco e degradado pelas obras de infraestrutura da estrada.

“Hoje a gente tenta recuperar essa nascente, um trabalho muito árduo. Mas não é um trabalho só do povo Krikati, é também da sociedade. Precisamos de apoio e  ação humana para recuperar essa área degradada.” conta a professora Silvia Cristina Pyxcuryh Krikati.

Em vez de esperar por uma reparação oficial que nunca veio, a comunidade reagiu. Através do projeto ‘Fortalecimento Territorial e Ambiental na Terra Indígena Krikati’,implementado pelo Instituto Makarapy, formou brigadas de reflorestamento, implantou viveiros comunitários e iniciou a recuperação das matas ciliares com espécies nativas. Mais do que reflorestar, estão, como dizem, “plantando água”, expressão que traduz a cosmovisão Krikati de que proteger a terra é cultivar a vida. A estratégia inclui também o enriquecimento dos rios com espécies nativas invisibilizadas pelo mercado, mas centrais para a espiritualidade, alimentação e medicina do povo.

“Com a obra e o desmatamento, a água secou. O peixe sumiu. O surubim – mais conhecido como “Cõorõ” pelo povo Krikati – o curimatá, o pial, eles faziam parte dos rituais do nosso povo. Se os jovens não conhecem mais esses peixes, vão achar normal não existirem. Isso condena o futuro das gerações.” denuncia Silvia Krikati.

Mulheres que regeneram territórios

Um dos pilares do projeto é a abordagem transversal de gênero, que rompe com a invisibilidade histórica das mulheres indígenas nas ações de conservação ambiental. Mais de 30 mulheres Krikati já foram capacitadas em temas como cartografia participativa, gestão territorial e liderança política.

Essas mulheres hoje compõem uma brigada feminina de reflorestamento que atua diretamente na coleta de sementes, produção de mudas e recuperação de nascentes. Programas de mentoria, rodas de conversa, campanhas educativas e formação em direitos das mulheres integram a metodologia, com foco em empoderamento, autonomia e justiça climática.

“A história do povo Krikati mostra que a resposta à crise climática pode vir dos povos e dos saberes tradicionais. É um exemplo de resiliência, protagonismo comunitário e inovação a partir dos territórios”, reforça Aryanne Amaral, Analista Socioambiental do CEPF Cerrado no IEB.

Cooperação internacional e soluções de base comunitária

A realização do projeto na Terra Indígena Krikati é viabilizada com o apoio do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), que atua no Brasil desde 2016 com foco na proteção da biodiversidade do Cerrado por meio do fortalecimento de organizações da sociedade civil. Reconhecido por priorizar soluções lideradas por comunidades locais e por incorporar recortes de gênero, território e justiça climática, o CEPF já apoiou mais de 100 projetos em todo hotspot Cerrado. O CEPF é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão e do Banco Mundial.

Sua implementação regional é coordenada pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), organização com 28 anos de experiência em formação, articulação de redes, gestão de conhecimento e conservação socioambiental. É esse suporte técnico, político e financeiro que tem permitido que iniciativas como a dos povos Krikati e Apinajé avancem com autonomia, enraizamento e impacto real.